domingo, 19 de outubro de 2008

Pobreza

"Era um inverno, tão frio, tão frio, que os pobres sofriam ainda mais do que o habitual.O rabino escolheu um dos dias mais gélidos para procurar o único judeu rico do povoado, homem famoso pela sua avareza. Bateu à porta, e foi o próprio que veio abrir. Era, seguramente, o único indivíduo da aldeia a não vestir mais do que uma camisa dentro de casa, tal era a qualidade do aquecimento no seu interior.

- Faz favor de entrar, rabi, está quentinho cá dentro.

- Não, não, não vale a pena, não demoro mais do que um minuto.
E o rabino encetou uma longa conversação com o homem, perguntando-lhe novidades de cada membro da família. O homem batia os dentes, porta sempre aberta, insistindo incessantemente com o rabino para que entrasse, mas este recusava sistematicamente.

- E o primo do seu cunhado, que foi para a cidade, como é que ele está? – continuava o rabino…

O homem estava roxo de frio.

- Finalmente, rabi, qual é o motivo da sua visita? – acabou por perguntar.

- Vim com o intuito de lhe pedir dinheiro para comprar carvão para os pobres da aldeia.

- Pois bem, então vamos entrar, falamos melhor sobre isso no quentinho…

- É que se eu entro, sentamo-nos à lareira, ficamos aquecidos, e quando eu lhe explicar que os pobres têm frio, o senhor não irá compreender. Vai-me dar cinco rublos, quando muito dez. Mas, assim, cá fora, sentindo-se um pouquinho de frio, estou certo de que o senhor vai compreender melhor…

O homem ofereceu cem rublos ao rabino, ficando feliz, quanto mais não fosse pelo facto de poder fechar a porta e voltar a sentar-se junto à lareira.

"(Marc-Alain Ouaknin e Dory Rotnemer, in A Bíblia do Humor Judaico, I)"

Encontrei este texto no contrapobreza...

Mesmo não sendo hoje o dia escolhido para se falar no assunto, acho que é sempre tempo...

8 comentários:

SILÊNCIO CULPADO disse...

Amigona
Que bom este post sobre a pobreza. É sempre tempo de falar sobre a pobreza porque em todo o mundo existem pessoas a quem falta o essencial para poderem viver. Portugal, apesar de não ter aquela pobreza endémica, tem quase 2 milhões de pessoas a viverem com menos de 336 euros/mês.
Porém, para que as pessoas acordem para esta realidade, é necessário que a sintam de perto. Não para praticar aquela caridade que avilta mas para que aceitem partilhar, duma forma mais justa e equilibrada, toda a riqueza disponível.

Abraço

ManDrag disse...

Salve!
É sempre oportuno falar da pobreza e de todos os outros males que afligem os mais desvalidos deste mundo.
Excelente parábola esta, cheia de conteúdo.
Vou mais contente agora, depois de a ter lido. Os pobres podem ainda sofrer, mas fiquei sabendo que há ainda quem se lembre e preocupe com eles.
Salutas!

Odele Souza disse...

Importante texto amigona.
Quantos contrastes entre a forma de viver das pessoas, não é? Uns têm tanto, outros tão pouco.
Quem tem calor deveria dividir com quem tem frio. Quem tem mais com quem tem menos...

Tomara nunca ninguém precisasse passar frio ou fome.

Bichodeconta disse...

Assim se conquista uma pequena dádiva! Bem concebida a história..

LuisaB disse...

Olá
passei neste blog ao acaso e fiquei surpreendida positivamente por ser abordada a diferença, direitos do homem e animais embora eu nos nossos dias raramente observe atitudes de valor à minha volta pelo menos não. Despejam-me gatos no verão aqui no local em que vivo que é uma pequena Quinta e já cá conto 44 gatos. Não sou rica, já fui! Gastei tudo quanto tinha para descobrir a doença do meu filho que afinal é autista/asperger e não tem cura, a sua fobia social e os maus tratos na escola ao qual foi sujeito durante anos quer físicos, verbais e psicológicos arrasaram com ele, hoje não estuda está de baixa psiquiátrica.
Os animais e a natureza, assim como os mais desafortunados que nós são a sua única fonte de preocupação. Prefere deixar de comer a ver os animais terem fome.
Enfim...uns fazem o que podem devido à sensibilidade que tem dentro de si, não precisam sentir o "frio" na pele para saberem agir correctamente com o sentido de dever e consciência que cada um nasce e cresce sendo educado para tal: ser humano e muito próximo do coração!
Boa continuação de bons post.
Beijinhos e abracinhos

JOY disse...

Ás vezes só assim é que as pessoas compreendem as dificuldades dos seus semelhantes

Joy

Vieira Calado disse...

Tava a ver que mesmo assim o judeu não lhe dava um tostão...

Vá lá...

Cumprimentos

José Miguel Gomes disse...

Sim, sempre tempo...

Fica bem,
Miguel